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Luís Borba, fundador da SuperOpa, startup que atua na redução do desperdício de alimentos: empresa emitiu títulos de dívida para continuar crescendo — Foto: Rogerio Vieira/Valor

‘Venture capital’ seca e startups buscam novas formas de captação

A SuperOpa, startup que vende produtos próximos ao vencimento que seriam jogados fora com descontos de até 80%, precisava de dinheiro extra este ano para acelerar seu crescimento. Sua receita havia ganhado tração em 2023, após a compra de uma empresa especializada em cestas básicas, que trouxe uma carteira de 32 mil trabalhadores. Mas, diante de um mercado pouco amigável de “venture capital” (investimentos em startups com potencial de crescimento rápido), seu fundador, Luís Borba, desistiu de abrir uma nova rodada de captação. “O mercado mudou e os fundos estão pagando menos pelas startups.” Ele partiu, então, para uma emissão de dívida em notas comerciais “tokenizadas” via “crowdfunding”, com a ideia de levantar R$ 800 mil. A demanda foi tanta que a operação atingiu R$ 1 bilhão.

Muitas outras se viraram como puderam e foram obrigadas a escolher caminhos mais caros para obter dinheiro. Estudo da KPMG mostra que o volume de capital disponível para gestoras de venture capital investirem em startups no Brasil fechou 2023 em US$ 2,2 bilhões, em queda de 47%. Foi um tombo maior que a média mundial, que encolheu 35%. Em número de transações, o recuo no país foi menor, de 25%, quase igual à média internacional (-27%). Segundo o levantamento, no mundo, em volume de recursos no ano, as assets de venture capital levantaram US$ 161 bilhões, frente aos US$ 307 bilhões de 2022.

E para 2024 não há perspectiva de melhora, mesmo com o ciclo de queda dos juros já iniciado no Brasil e prestes a começar nos países desenvolvidos. “Vai ser mais um ano de aprendizado. As startups mais fracas não devem conseguir levantar dinheiro. O mundo do venture capital só deve retornar em 2025 ou 2026”, diz Daniel Malandrin, sócio-líder de venture capital e inovação da KPMG no Brasil.

Ele explica que as alternativas incluíram empréstimo-ponte, pequenas rodadas de investimentos, crowdfunding (financiamento coletivo) e “venture debt” (dívida com instituições especializadas em startups), por exemplo, além de fusões e aquisições. “As empresas buscaram equacionar o ‘gap’ financeiro do momento de forma a não cair muito de valor e esperar o pior momento passar.” Diego Perez, presidente da ABFintechs, entidade que tem cerca de 700 associadas, ressalta que a jornada não foi fácil. “Muitas startups tiveram que buscar alternativas. No entanto, essas opções também enfrentaram desafios, especialmente devido às altas taxas de juros que penalizaram essas empresas.”

“As empresas buscaram equacionar o gap financeiro”
Daniel Malandrin

Levantamento da plataforma de inteligência de dados Sling Hub, a pedido do Valor, mostra que o volume de operações de dívida (debêntures, linhas de crédito e empréstimos conversíveis) cresceu 43% em 2023. Os chamados “grants” (investimentos que não têm uma contrapartida, como, por exemplo, o programa Google for Startups) subiram 2.578% – duas operações que somaram US$ 5,2 milhões puxaram especialmente o número para cima, mas em número de rodadas o avanço também foi significativo e chegou a 248% – e operações com fundos de recebíveis, 168%.

As startups evitam fazer novas rodadas em valor menor que a anterior porque isso leva a uma queda do preço de referência e, portanto, do patrimônio dos investidores. O impacto de rodadas menores, comenta Malandrin, atinge também os fundos de venture capital, que dessa forma não conseguem manter o desempenho na média histórica. “Quem teve que aceitar um ‘down round’ [quando o valor da startup em rodada de investimento está abaixo do que em uma anterior] para a empresa não falir também vê queda no patrimônio do fundo, o que cria dificuldade para novas captações.”

Para Malandrin, o tom dos próximos meses vai ser de cautela e criatividade para as startups equilibrarem as contas e buscarem funding. O executivo lembra que em 2022 a previsão já era de que o mercado levaria ao menos três anos para se recuperar, e a recomendação geral que ele dava para as empresas era levantar o necessário para 36 meses e adotar uma gestão de caixa muito eficiente. “Vimos muita quebradeira nos últimos meses, num mundo de janelas fechadas.”

Ele cita dois fatores importantes no cenário macroeconômico que levam a essa avaliação. Primeiro, a demora do banco central americano a reduzir os juros e a seca de ofertas públicas iniciais na bolsa brasileira, que já dura mais de dois anos, o que aumenta a dificuldade de precificação de ativos privados. “No caso de startups em estágios avançados, o investidor não vê porta de saída [para lucrar se desfazendo de sua fatia na empresa] e raramente elas pagam dividendos.”

Era esse recuo no valor que Borba, criador da SuperOpa, quis evitar ao optar pela oferta de dívida estruturada pela SMU Investimentos, com nove meses de carência, prazo de 24 meses, pagamentos trimestrais e juros prefixados em 2,20% ao mês. Ele lembra que o dinheiro captado na rodada de capital semente – conhecida no jargão do mercado como “seed” e indicada para projetos que já tiveram a ideia validada e que começam a fase de expansão – acabou de entrar no começo de 2023. Em novembro, diz Borba, a empresa atingiu o chamado “ponto de equilíbrio” (quando os ganhos se igualam aos custos) e precisava de injeção de recursos, mas abrir mais uma rodada de captação significaria um cálculo de valor mais baixo.

“Essas opções enfrentaram desafios, devido às altas taxas de juros” Diego Perez

“A operação vai ajudar a capitalizar sem diluir a empresa antes de irmos em busca de uma rodada série A [primeiro passo para sair do grau semente e se tornar uma startup em estágio inicial]. Queremos ficar no controle da empresa o máximo de tempo possível, porque esse é o nosso sonho.” A SuperOpa encerrou o ano passado com faturamento de R$ 11,2 milhões e crescimento de 277% sobre 2022. Para este ano, a projeção é de expansão acima e 300%, para uma receita de R$ 48 milhões, números fortes que cacifam a empresa a planejar a abertura do roadshow para a série A em junho.

Com objetivo principal de reduzir o desperdício de alimentos e a insegurança alimentar, a SuperOpa conseguiu fechar acordos com mais de 80 grandes fabricantes, como Nestlé, Unilever, Ambev e Natural One, para coletar alimentos que seriam descartados. Esses produtos são vendidos diretamente no site da startup e também compõem as cestas das cerca de 700 empresas que são suas clientes. As fábricas depositam o dinheiro equivalente a uma cesta básica comum para cada trabalhador e, no aplicativo da empresa, o Food Pass, ele escolhe como quer compor as compras do mês, entregues em caixas personalizadas nas unidades. De acordo com Borba, o funcionário recebe R$ 180 de vale-alimentação e leva em produtos o equivalente a R$ 270.

Das 13 mil startups existentes no Brasil hoje, 1.460 são fintechs. O estudo da KPMG revela também que o segmento continua no topo da preferência dos investimentos, seguidas de varejo, marketing, saúde e educação (retailtechs, martechs, healthtechs e edtechs). Malandrin explica que isso ocorre porque o mercado financeiro brasileiro tem alta concentração de ativos em cinco bancos, com altos spreads bancários, o que abre vários nichos para oferta de alternativas mais eficientes de pagamento e crédito, por exemplo, com custo mais baixo. “É uma estratégia que começa com o domínio de um pequeno segmento que não é bem servido até que a geração de caixa atinja um nível que permita a expansão da atuação.”

Perez, da ABFintechs, porém, alerta que é preciso avançar no conjunto de regras que rege o setor. “A inovação avança até certo ponto. Os reguladores [seja no mercado financeiro, de capitais, seguros, previdência privada etc.] precisam estar engajados em desenvolver o regulamento para acomodar a inovação, permitindo que esses novos produtos aconteçam.”

Fonte: Valor
Por: Liane Thedin

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